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SITIO PAU FERRO – ITATIRA: AGRICULTOR MORA SOZINHO NO MEIO DO SERTÃO E DIZ QUE VIDA É DIFERENCIADA DA CIDADE.


ELE SERVE DE REFERÊNCIA PARA OS VIZINHOS QUE PREFEREM CONTINUAR NO CAMPO

Quem continua na zona rural justifica a escolha pela tranquilidade, embora a violência já seja uma realidade.

Depois de percorremos 138 quilômetros de Canindé até o Sitio Pau Ferro, na Comunidade de Oiticica, no Município de Itatira, chegamos ao nosso destino; a casa do agricultor Francisco dos Santos, ou simplesmente ‘’Chico dos Santos’’ de 87 anos, que preferiu ao longo do tempo morar sozinho, e, longe de tudo: de comunicação: rádio, televisão, celular, e até cartas manuscritas a mão.

Sua morada: uma residência de pau a pique, sem nenhum conforto, mas que serve de referência para a história de um homem que nunca pensou em casar. Anda de bicicleta, planta e cuida sozinho da roça, faz seu próprio alimento e tem orgulho da vida que leva.

Não tem energia elétrica (utiliza uma lamparina movida a querosene), o fogão foi improvisado (varas, barro, arame e pedaços de ferros), e, funciona a lenha da vegetação. A água consumida vem de um pote antigo retirada de um pequeno reservatório existente na propriedade. Os assentos foram construídos pelas próprias mãos, com troncos de árvores.

A cama foi substituída por uma rede e o banco de visitas foi feito com um pedaços de madeira que retirou do meio da caatinga da região.

A falta de segurança no Sertão incomoda seu ‘’Chico’’. Segundo ele, já foi roubado duas vezes. ‘’A primeira vez levaram minha espingarda ‘’Pei bufo’’, nome dado a uma arma artesanal muito utilizado no meio sertanejo, para caça e defesa pessoal. A segunda vez, levaram uma porca que eu estava criando para vender na festa de Nossa Senhora do Carmo’’, lamenta.


A Reportagem do ‘’C4 NOTÍCIAS DO POVO ON LINE’’ passou dois dias na região onde mora o agricultor e conheceu um pouco da realidade de vida de um homem que aprendeu, o trabalho, a simplicidade, o amor pela terra e o que é mais importante o sentido da vida e, de vizinhos que optaram em permanecer nas terras onde nasceram.

Apesar da perda do sentimento de segurança ele diz gostar da vida tranquila que leva no campo, com menos barulho e corre-corre.  ‘’Minha vida é mais ligada à terra, e, ao lugar onde nasceram meus pais e meus avós’’, relembra.

A cada pesquisa, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam essa tendência, que é mundial, e começou mais fortemente no século XIX com a consolidação da Revolução industrial. O capitalismo e a urbanização seguem juntos.

De acordo o IBGE, no Ceará, em 1960, na zona rural habitava 66% da população. Em 1980, esse índice caiu para 46%, houve uma inversão que se acentuou nas décadas seguintes. A maioria passou a morar nas áreas urbanas. Em 2010, no último censo demográfico, apenas 25% moravam em áreas rurais.

Seu Francisco faz parte desses números. Atualmente Itatira tem 18.894 habitantes, sendo que Zona Urbana do Município e 9.372 na Zona Rural, numa área de 783,35km2.


"A urbanização avança rapidamente e as nossas cidades seguem essa tendência", observa Domingos Sávio, dono de uma propriedade na localidade de Oiticica. ‘’Não vejo reversão desse quadro porque a qualidade de vida é melhor nas cidades, onde há oferta de serviços que o campo não dispõe. Domingos vê um campo esvaziado em comparação com a década de 1970. ‘’O crescimento de algumas vilas rurais decorre de um processo local de urbanização’’.

Outra característica de quem habita o campo, na avaliação de Domingos Sávio, é apresentar uma idade mais avançada. É o caso de Francisco dos Santos que não troca sua moradia no meio do Sertão. ‘’São mais idosos que por acomodação e costume permanecem nessas áreas. Os jovens preferem os centros urbanos em busca de trabalho e estudo, afastando-se das atividades agropecuárias, que nestes últimos anos, por causa da seca, estão cada vez mais adversas’’.


Atrativos

A música "Deus e eu no sertão", composta por Víctor Chaves e interpretada pelos irmãos Víctor e Leo, resume alguns dos sentimentos dos moradores das áreas rurais: felicidade, som da mata, trabalho com a terra, que é inspiração, sentimento de proximidade da natureza, dos parentes, casa simples e rede para dormir.

Na localidade de Oiticica, zona rural do município de Itatira, o número de famílias aumentou em comparação com quatro décadas passadas. É uma área isolada, distante 14Km da sede urbana. A maioria tem laços de parentescos.


"Aqui tem tudo da cidade: energia, televisão, telefone e mais tranquilidade", justifica o agricultor Hélio Felipe, 67. "Nasci aqui, me criei com meus avós e pais e daqui só saio para o cemitério de Lagoa do Mato’’, completa.

As famílias que permanecem no Sertão reconhecem, entretanto, que os jovens já saíram para os centros urbanos em busca de oportunidades.

O Prefeito da cidade Antônio Almir observa que, nas cidades, houve uma expansão do centro urbano nos últimos 30 anos. "Áreas que no passado recente eram sítios, localidades rurais, hoje são Vilas e Lugarejos em expansão", frisa. ‘’Morar em regiões próximas das cidades oferece muitas vantagens: silêncio, tranquilidade, diferentemente de localidades distantes, isoladas, sem acesso a serviços básicos’’, destaca.

Violência

No campo, há duas realidades distintas, que começam a conviver: a tranquilidade e a chegada da violência, que é crescente. Dependendo do local, os sertanejos praticamente perderam o sentimento de tranquilidade, que foi substituído pelo medo e desconfiança de quem chega próximo às casas ou passa nas estradas. A mudança foi rápida.

O temor agora é de uma criminalidade crescente que bate à porta das famílias do Interior, não apenas dos centros urbanos, mas da zona rural.

A criminalidade estendeu-se dos centros urbanos para as áreas rurais e essa realidade é extensiva a todas as regiões do Estado, com variantes de intensidade e modo diverso de ocorrência. Não é um fato isolado. Os casos mais comuns são de assaltos praticados contra moradores e comerciantes locais.

Há exceções, mas, na maioria dos sítios, os moradores têm relatos, lembranças de que algum vizinho ou conhecido que já foi vítima de assalto. A melhoria de renda das famílias permitiu aquisição de bens como motocicletas e smartphones, e a instalação de mercadinhos, lojas de confecções, na zona rural. Isso tem despertado a atenção dos ladrões e assaltantes.

As grades de ferro já são comuns nas casas da zona rural. O clima de insegurança também. São poucos os sítios que ainda preservam o sentimento de paz. Em Oiticica, os moradores aproveitam a sombra e o clima ameno no fim de tarde para conversar, evitando permanecer à noite fora de casa.

"Ninguém imaginava que a violência ia chegar desse jeito nos sítios", disse o aposentado José Carlos Celestino Neto. ‘’Não dá mais para confiar em ninguém’’, finaliza.



Fotos e texto de Antônio Carlos Alves

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