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A FOME E A SEDE INVADEM OS SERTÕES DE CANINDÉ.


Sem fazer alarde, silenciosa e sorrateira, como um bicho que se enfia pelo mato, a fome corrói os lares miseráveis do Sertão nordestino e dos lugares mais distantes dos Sertões de Canindé. Faz estrago sem pressa. Matando aos poucos, surda e continuadamente, seu exército de famintos. Nas regiões, áridas pela própria natureza e erodida pelo homem, o mal-assombro se espalha, na sua versão mais perigosa. De forma oculta, camuflada num prato de feijão, num cuscuz de milho, que se come dia sim, dia não.

Essa é a dura realidade de muitas famílias que não sabem o que comer no dia seguinte. Depois de várias décadas, pouca coisa mudou. É o flagelo dos que nada ou pouco têm para comer.

Na jornada de quase 400 quilômetros, percorridos em dois meses por estradas esburacadas e empoeiradas onde deságuam todas as veredas e sertões, a reportagem do C4 NOTÍCIAS O POVO ON LINE descobriu que o monstro da fome amansou, comparado ao tempo em que Josué de Castro o revelou para o mundo, no livro Geografia da Fome, mas está longe de ser domado. A velha esquelética do chapéu grande, como os sertanejos de antigamente retratavam a figura da fome, persiste, alimentada por uma miséria que separa os que têm e podem quase tudo dos que não têm nada. Uma legião de excluídos que no Brasil somam quase 14 milhões. Quatorze milhões de bocas incertas da comida de amanhã.

A endemia dos famintos brasileiros está relacionada a acesso e não à disponibilidade de comida.

É no mesmo Brasil das safras recordes que se chora por comida. É no mesmo Brasil que louva o agronegócio das toneladas de grãos que se dói de fome. Hoje, o maior acesso à alimentação tem agora nome de batismo: Bolsa-Família. Se com ela o cenário é de penúria, sem ela seria de genocídio. O assistencialismo no País das abundâncias se enraíza por terras secas de alternativas. Homens e solo sedentos por uma reforma agrária longe de ser concretizada.

Não basta dar a terra para morar, é preciso colocar condições para o homem produzir e isso está longe da realidade nos Sertões de Canindé.

Para frei Betto a mordida da fome atormenta muitas famílias sertão adentro. “Suas idéias e propostas são louvadas, porém pouco ou nada praticadas. É preciso divulgá-las por toda parte, em todos os meios de comunicação, para que o Brasil fique livre, definitivamente, de sua maior chaga: a fome de milhões de pessoas.” Essa fome que ronda nossa região.

Para conhecê-la basta colocar uma mochila nas costas, uma máquina fotográfica em mãos e coragem de enfrentar estradas de difícil acesso e conhecer a realidade de um Sertão que clama por dias melhores.

O que se escuta e ver são relatos de dor extrema, tão aguda que muitas vezes anestesia e se cala, em um Brasil que não pode mais se alimentar de suas vergonhas.


Por onde passamos um retrato só: dificuldades de encontrar alimento e água. Em uma residência no Município de Canindé, a conversa avança, a hora passa, e nada de comida para as crianças. Somente o fogão de lenha com cinzas vencidas e panelas surradas com um caldo preto. Dona Maria (nome preservado), só tinha sal, farinha e um resto de arroz. A Reportagem abriu um pacote de bolacha, trazido na viagem. Os meninos comeram ali mesmo sobre um chão de barro batido, sem nenhuma condição de dignidade.

Os meninos nem ligam. Estão anestesiados. Misturam fome e exclusão no mesmo prato de abandono. ‘’Se não fosse à mãe do Sertão, não sei o que seria de minha vida’’, disse dona Maria se referindo à Bolsa Família, que enfrenta bravamente os bolsões de miséria instalados nos Sertões de Canindé.

Mesmo assim o relator do orçamento, Orçamento da União de 2016, deputado Ricardo Barros (PP-PR), anunciou que pretende cortar R$ 10 bilhões no programa Bolsa Família.





Fotos e texto: Antônio Carlos Alves

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