16 novembro 2014

Após seis meses parentes de vítimas do acidente em Canindé lutam para superar a dor

O tombamento de um ônibus que seguia na BR-020 deixou 17 pessoas mortas e dezenas de feridos

O veículo tombou na 'curva da morte' menos de uma hora depois de deixar a Cidade de Boa Viagem, matando 17 passageiros
FOTOS: ANTÔNIO CARLOS ALVES

Canindé. Tirar da dor uma lição de vida. Assim pode ser resumida a história de várias famílias que perderam seus entes queridos no maior acidente automobilístico já registrado nos Sertões de Canindé, desde a fundação do Município. No dia 18 de maio de 2014, uma viagem rotineira entre Boa Viagem e Fortaleza, que acontecia todos os dias, transformou-se numa tragédia.

Famílias se deslocavam para passeios, negócios, férias. Por volta das 8 horas e 5 minutos, a história deles mudou para sempre. O veículo tombou na 'curva da morte' menos de uma hora depois de deixar a Cidade de Boa Viagem e deixou um rastro de destruição, matando 17 passageiros, que ficaram aos pedaços, numa cena jamais vista.

De acordo com o Departamento Nacional de Infra Estrutura e Transportes (Dnit) serão instaladas duas barreiras eletrônicas a 70 metros da curva, onde aconteceu o acidente para redução de velocidade
FOTO: ANTÔNIO CARLOS ALVES
Francisca Nascimento, mãe do jovem Francisco Adriano Nascimento da Silva, que perdeu a vida no acidente disse que lembra do filho todos os dias. "Ainda não me acostumei com tudo isso, parece que ele está vivo e vem me visitar toda hora", falou ainda com a voz trêmula e os olhos cheios de lágrimas.

Um fato curioso é que todos os dias, ela segue para o local para regar uma planta que leva o nome de seu filho. "Vou cuidar dela (planta), como eu cuidava dele quando criança. Aqui está a vida dele. Até a planta eu batizei de Adriano, numa referência ao filho que trabalhava no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), em Boa Viagem.

Devido ao estado dos corpos, a Coordenadoria de Medicina Legal (Comel) fez exame de DNA e teve que revisar o número de mortos
FOTO: KIKO SILVA
Foi triste e muito doloroso, ainda lamenta a Secretária de Saúde de Canindé Aline Macedo que colocou toda estrutura do Município no socorro às vítimas do acidente.

Daniel Moura lembra do pai Francisco Moura Lima, que morreu com 71 anos e da mãe Maria Rosary Pereira que se foi com 67 anos. Daniel Pereira Moura disse que a fé em Deus e São Francisco, ainda lhe mantém de pé. "Minha vida transformou-se em muito sofrimento.

A cada dia imagino como seria a volta deles para junto de nós, mas sei que eles, continuam no nosso meio e perto de Deus".

Segundo ele, o processo das indenizações se encontra em fase de negociação com a empresa seguradora, mas estão avançadas. "A Empresa Princesa dos Inhamuns tem sido atenciosa nas negociações e acreditamos que as coisas irão ocorrer dentro dos tramites legais do processo. Claro que dinheiro nenhum do mundo vai pagar pelas vidas".

Resgate

Além dos parentes, quem esteve no local ajudando no resgate das vítimas também não esquece o que viu. Na estrada, em meio a bagagens dos passageiros e estilhaços de vidros do ônibus, havia corpos com membros decepados e outros esmagados. As pessoas foram jogadas e o coletivo arrastou as vítimas.

Fernando Pipi, que foi um dos voluntários durante todo o dia, disse nunca ter presenciado uma situação tão comovente. "Tinha pessoas presas debaixo do ônibus e gritavam a todo instante pedindo para sair. Era difícil ouvir tudo aquilo. Depois de muito esforço conseguimos tirar uma mulher que se encontrava debaixo do carro, mas infelizmente ele veio a falecer depois'', narrou Fernando.

Outro que não consegue tirar da mente as cenas tristes é Evandro Pereira da Silva, um dos primeiros a chegar ao local. "Estava em casa assistindo televisão, quando me avisaram que um ônibus havia virado na BR-020, de imediato corri para o local a fim de ajudar, quando cheguei me deparei com pedaços de gente por tudo que era parte'', disse.

Processo

O processo continua nas mãos da presidente do inquérito policial, delegada Gisele Martins. Foi devolvido pelo Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) que pede os exames de corpo delito dos sobreviventes do acidente. A assessoria do MP disse que nos autos do processo se encontram apenas os laudos cadavéricos e a promotora solicitou novas diligências.

O laudo emitido pela Perícia Forense do Ceará (Pefoce) aponta que uma das causas do acidente foi um desvio "brusco" a direita feito pelo motorista, mas não diz qual o motivo da manobra do condutor. O documento destaca, ainda, que no dia e horário do acidente o veículo empreendeu velocidade de 0 a 90 Km/h com base no exame do disco recolhido no tacógrafo do veículo.

O documento ressalta também que o local do sinistro não possuía sinalização vertical ou horizontal, mas "pelas características técnicas do trecho (rodovia em área rural e sem sinalização regulamentadora), que no mesmo, a velocidade máxima permitida seria de 90 Km/h para ônibus e micro-ônibus".

Outro ponto analisado pelos técnicos da Pefoce foi a ausência de uso dos cintos de segurança pelos passageiros. "Ao tocar no solo com a sua lateral direita, as grandes áreas envidraçadas do veículo cederam, ante a força do impacto, e por elas, foram arremessados os passageiros que estavam junto as mesmas, sendo, então, jogados ao solo e triturados pela estrutural lateral do ônibus que deslizava. Toda essa complexidade de situações, induz-nos a crer que as consequências do acidente foram potencializadas pela inação dos passageiros ao não utilizarem o cinto de segurança".

Por fim, os peritos da Pefoce concluiram que "o acidente de tráfego teve sua gênese no brusco desvio direcional para a direita, imposto ao coletivo por seu guiador, com antecedentes causais alienígenas ao conhecimento pericial, corroborado pela deficiência da sinalização do local, cujas consequências foram potencializadas pelo não uso do cinto de segurança".

Trecho da BR-020 será sinalizado

Para evitar uma nova tragédia no trevo da BR-020, no quilômetro 303, na localidade de Jubaia, a cinco quilômetros da sede de Canindé, igual ao registrado no dia 18 de maio de 2014, o Departamento Nacional de Infra Estrutura e Transportes (Dnit) informou que serão instaladas de duas barreiras eletrônicas dentro do trecho que compreende a área que dá acesso ao centro comercial de Canindé.

O engenheiro José Rabelo, disse que no período de 15 dias, serão instaladas duas barreiras eletrônicas a 70 metros da curva, onde aconteceu o acidente para redução de velocidade entre 80 e 60 quilômetros.

"Além de contar e classificar veículos em cinco categorias, para que o órgão tenha uma melhor avaliação da região, onde existem trechos mapeados que oferecem perigos aos motoristas, vai reduzir o número de acidentes'', explicou Rabelo.

A sinalização horizontal em todo percurso da BR-020 entre Fortaleza e a divisa do Piauí também irá ser feita num prazo mínimo. Segundo o presidente da Associação das Vítimas do Acidente de Canindé, Daniel Moura, o requerimento foi protocolado junto ao Dnit, pedindo urgência no mapeamento de sete pontos críticos com alto número de acidentes na BR-020 no trecho Fortaleza - Picos, principalmente o trevo de Canindé. "Fomos atendidos pelo Superintendente do órgão no Ceará, Diógenes José Tavares Linhares que de imediato autorizou esse estudo'', disse a Daniel Moura.

Número de mortos foi revisto pela Perícia Forense

Quem deveria estar ocupando a poltrona de número 5 do ônibus que tombou na BR-020, não seguia viagem. Alexandre Soares dos Santos, de 37 anos, chegou à rodoviária às 7h05, mas o ônibus já havia saído na hora marcada, às 7h. Coincidência ou não foi salvo pelo número cinco.

Alexandre é analista têxtil e reside em Fortaleza, porém sua família reside em Boa Viagem, local de onde saiu o coletivo. O homem havia ido visitar o filho de cinco anos e a esposa, tendo saído da Capital no sábado dia 17 de maio, às 6h, e deveria voltar às 7h do domingo.

Esse trajeto faz parte da rotina de Alexandre. "O meu filho tem 5 anos, e há 4 anos e meio faço esse percurso. Geralmente, vou uma vez por mês visitá-lo", disse o homem no dia do sinistro rodoviário à reportagem.

O analista têxtil ficou hospedado em um hotel em frente à rodoviária, no quarto de número cinco, mas mesmo assim perdeu o horário. "Estávamos (no hotel) eu e minha companheira. Eu coloquei o meu celular para despertar às 6h e a minha mulher colocou o dela para 6h15, mas nenhum despertou", revelou Alexandre.

"Eu acordei cedo, mas o quarto estava escuro. Então esperei o celular despertar, como sempre faço", disse. Alexandre levantou para ir ao banheiro um pouco depois das 7h, quando olhou no relógio de pulso e viu que estava atrasado. Ele chegou a correr para a rodoviária, porém o veículo já havia saído. "Eu paguei mais R$ 8 e consegui sair no ônibus de 8h45", disse.

Ao seguir viagem, o espanto para o homem veio no município de Madalena, quando uma passageira recebeu uma ligação. "Eu estava em Madalena quando ligaram para a moça da cadeira da frente, perguntando em qual ônibus ela estava, porque um tinha capotado. Então seguimos viagem e passamos pelo acidente", relatou Alexandre.

"Só caiu a ficha que era o ônibus que eu iria quando eu vi na frente que era Boa Viagem-Fortaleza. Eu fiquei em estado de choque", disse o analista.

Antônio Carlos Alves
Colaborador  do Diário do Nordeste.

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