15 abril 2013

Três Franciscas, uma Maria e o sonho na vida de estudar

Quatro crianças da zona rural vencem obstáculos na busca de se tornarem jornalista, juíza, médica e advogada no futuro
Canindé Para atingir seus objetivos educacionais, não precisa estudar em escolas particulares tampouco pagar mensalidades de grandes valores. É preciso apenas determinação, compromisso e força de vontade. Essas qualidades se fazem presentes na vida de quatro amigas que estudam em escolas públicas da zona rural de Canindé, Município encravado no Sertão do Ceará a 126 quilômetros da Capital.

Francisca Chalia Braga Sampaio,13, cursa o 8º ano na Escola Cecília Pinto na comunidade de Santana da Cal, no Distrito de Bonito, e sonha ser advogada. Segundo ela, quando terminar o ensino médio vai buscar junto às instituições educacionais do Estado apoio para começar a realização de seu sonho.

"Tenho muita fé que irei me formar e poder ajudar minha família que vive da agricultura. Sou uma aluna determinada e nunca faltei sequer um dia de aula, mesmo quando chove", orgulha-se, ressaltando que não é proibido sonhar.

Quem também não esconde a vontade de estudar é Francisca Chalany Santos Sampaio, 9, que cursa o 4º ano na Escola José Cabral de Araújo, na localidade de São Joaquim. Ela quer ser médica quando concluir os estudos. "Irei me formar. Essa é a única coisa que tenho certeza na minha vida. Recebo o apoio de minha família, parte importante para chegar ao meu ideal. Quando se sonha coisas boas nunca é tarde para ser feliz´´, diz.

Consciência
Ela se orgulha de ter as melhores notas da escola e, o que é mais importante, o carinho de todas as colegas. "A educação é a única coisa que os pais deixam de futuro para seus filhos. Isso eu tenho consciência que minha família tem feito por mim", diz a garota.

Francisca Kairis Silva Pereira,12, que faz o 8º ano na Escola Cecília Pinto, diz que o grande desejo dela é de ser juíza.

"Vou lutar muito para dar esse orgulho aos meus pais que são pessoas que vivem da roça, agricultura de subsistência. Comem o que produz. Ser pobre nunca foi nem será defeito de ninguém, por isso o meu sonho só Deus pode tirar de mim, mas tenho certeza que ele só irá me ajudar´´ fala, com os olhos brilhando. Maria Luiriane Braga Ferreira, 14, faz o 8º ano na Cecília Pinto e quer ser jornalista. "A vida de jornalista é bem agitada e é isso que eu gosto. Tenho muita admiração pela profissão dessas pessoas que levam a informação para dentro de nossas casas. Quem me conhece sabe do meu potencial e jamais irei desistir do meu maior sonho´´, salientou.

Segundo ela, ao terminar os estudos básicos, irá começar um curso preparatório para entrar na faculdade e pode concorrer a uma vaga nessa profissão que acha de grande importância para o crescimento do País.

Superação
As quatro estudantes carregam sonhos diferentes, mas um só destino: o caminho da escola. Elas realizam todos os dias o mesmo percurso para alcançarem ideais diferentes. O trajeto feito para chegar até o ônibus escolar é de 1 km. O veículo não consegue chegar a todos os lugares. Para elas, pouco importa a distância, o que importa mesmo é a formação educacional que recebem dos educadores para um futuro cheio de ideias e sonhos.

A professora Mônica Molina, diretora do Centro Transdisciplinar do Centro de Educação da Universidade de Brasília, escreveu artigo na revista "Nova Escola", edição de dezembro de 2012, sobre a realidade na escola no sertão do País. Para ela, a educação do Interior é muito mais do que uma proposta pedagógica. A especialista diz que a modalidade tem de contemplar a aprendizagem de saberes universais e sobre o local onde vivem os alunos. Assim, eles têm condições de escolher se permanecem ou não na zona rural.

Distância encurtada
Uma pesquisa do Censo Escolar de 2011 mostra que, no Brasil, ainda existem mais de 730 mil crianças e jovens de 6 a 14 anos fora das salas de aula. O que mais impacta são distância da escola e os problemas familiares que impedem as crianças de voltar a estudar. Em Canindé, parte está sendo amenizada com a aquisição de novos veículos para o transporte dos estudantes.

ROTINA DIÁRIA PARA CHEGAR À ESCOLA
Caminho é cheio de obstáculos
Moradoras da localidade de Santana da Cal, zona rural de Canindé, as quatro crianças Francisca Chalia, Francisca Chalany, Francisca Kairis e Maria Luiriane, deixam os seus lares todos os dias para enfrentar um caminho cheio de obstáculos até chegarem ao ponto de parada do ônibus escolar.

Fotos: Antônio Carlos Alves
Elas passam por dentro da vegetação local, superando, inclusive cercas e outros obstáculos.

A força de vontade das meninas em querer aprender e ajudar suas famílias é o combustível delas na empreitada no intuito de entrar na faculdade e concluir um curso superior. 

História sensibiliza moradores

Familiares, vizinhos, professores e até o próprio prefeito de Canindé, Celso Crisóstomo, ficaram tocados com a história de superação das quatro crianças estudiosas da localidade de Santana da Cal, no Distrito de Bonito, no município de Canindé

A força de vontade das crianças de Santana da Cal, no Polo 15, no Distrito de Bonito, mexe com todas as pessoas que conhecem a história. É o caso da professora Goretti Justino. Ela acredita que o fato principal que determina o bom estudo é a vontade de querer aprender e saber mais, sem essa vontade, não se chegará a lugar nenhum, e, para que isso aconteça, deve-se saber aonde quer chegar, com objetivos definidos.

Para a educadora, as quatro amigas se encaixam nesse perfil, pois preferem estudar na zona rural, tem vontade de aprender e já sabem o que querem mesmo antes de se formarem. Goretti lembra ainda que a autodisciplina ajuda o estudante, que deve treinar-se para ter domínio sobre a fantasia, imaginação, emoções e impulsos. Até o prefeito de Canindé, Celso Crisóstomo, conhecedor da história, também se comoveu com a história de vida das meninas que desejam ser médica, juíza, advogada e jornalista. Segundo ele, é um grande orgulho para o município ter alunos desse nível.

Projeto
Na opinião dele, "há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas gaiolas prendem e escolas asas fazem voar". A partir dessa visão, a Secretaria de Educação de Canindé está desenvolvendo um projeto para revitalizar o ensino público do município. Conforme o gestor, que é educador, "quanto mais se amplia a qualidade da educação, mas se reduz a desigualdade. É disso que Canindé precisa, é isso que o Canindé está fazendo´´, salientou o prefeito.

As escolas da sede e zona rural estão passando por um processo de melhorias, onde a grande finalidade é fazer com que os estudantes possam se sentir a vontade. Salas de informáticas, bibliotecas, energia elétrica, água tratada, já fazem parte do novo modelo de educação de Canindé. "Sabemos que a educação precisa de mais, e isso estamos buscando todos os dias ao lado do secretário de Educação Marcelo Bezerra ajustar essa linha de atuação junto aos nossos jovens que carregam sonhos memoráveis´´, observa.

Ensino público
Na visão do prefeito, é preciso fortalecer a escola pública como uma grande referência para a formação profissional.

"A escola pública brasileira será de fato pública e democrática quando for para todos, não só para os pobres. E ela será para todos à medida que ganhar mais qualidade. Quando pessoas diferentes convivem no mesmo espaço fortalecemos a escola, o aluno e a educação", afirmou.

ANTÔNIO CARLOS ALVES

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